Ao contrário do que muitos pensam, ser adolescente não é fácil. É uma fase que se configura pela transformação. Se você é adulto pode ter se esquecido o quão desconfortável pode ser ter todas as dimensões da sua vida em transformação a cada ano (ou mês, ou semana). Pense em seu corpo mudando drasticamente de um ano para o outro. Pense em ressignificar sua visão em relação às pessoas mais importantes da sua vida: antes heróis, hoje humanos comuns. Pense em seu lugar socialmente ser deslocado de forma abrupta, há alguns meses você era uma criança e agora precisa ser responsável pelos irmãos mais novos.
As adolescentes têm necessidades, sim. E muitas!
“Do que as adolescentes precisam” foi uma lista criada por mim a partir da minha experiência em atender como psicóloga adolescentes em contexto individual e grupal e coordenar um projeto social para jovens em Pau da Lima (bairro de Salvador) desde 2016. No período da pandemia fui tutora de um lindo Grupo de Crescimento para meninas e jovens mulheres “Desperte a Anne que tem em você”, baseado na série Anne with an E da Netflix. Além disso, desenvolvo trabalhos com jovens há 10 anos em âmbito religioso.
É importante salientar que essa lista funciona como uma espécie de rede em que os itens são interdependentes, por exemplo, “privacidade” sem “orientação e supervisão” pode ser um grande desastre. “Regras claras e sólidas” dão as mãos ao “afeto” e juntos formam uma força superpoderosa. Vou dividir os itens em postagens diferentes para que possa me aprofundar em cada um deles.

A ilustração é de @erisbeatriz
Escuta atenta
É muito comum as pessoas me perguntarem coisas do tipo “minha filha não quer mais conversar comigo e não sei como me aproximar”. Os adultos estão preocupados e não sabem onde encontrar respostas. Os famosos manuais de como educar crianças e bebês são mais raros quando se trata de ensinar a educar adolescentes.
Normalmente eu respondo com outras perguntas: Você já reparou em sua filha (sobrinha, neta, vizinha, etc)? Você olhou profundamente para quem ela é? Você já escutou suas histórias, suas ideias sobre o mundo, seus medos, suas paixões? Escutar que eu digo não é brigar, gritar ou dizer “vai ficar tudo bem” em tom genérico… Escutar é apenas escutar! Escutar é estar entregue ao momento com interesse sobre quem aquela pessoa é, sobre o que ela gosta de fazer e sobre sua identidade.
Estamos escutando pouco. Quantas vezes as pessoas perguntam sobre algo que a gente acabou de falar?
Você pode até fazer isso no seu dia-a-dia com seus colegas de trabalho, mas não pode fazer com sua filha. Adolescentes são sensíveis e caso notem que você não tem interesse por quem elas são, tenha certeza que a chance de se abrirem novamente vai diminuir a cada tentativa frustrada.
Muitas vezes as adolescentes estão pedindo ajuda, mas não são escutadas. Nem sempre esse pedido vai chegar de forma verbal e direta, são sinais que você nota quando é capaz de ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. Conheço inúmeros casos de adolescentes que chegam a se machucar para chamar atenção dos adultos. Não é um ato mimado ou infantil. É uma súplica: “Me note!”.
Se você é adulto pode dizer que tudo isso é frescura, que os jovens de hoje são cheios de “mimimi”, que adolescente não tem problemas de verdade e que difícil é ter contas para pagar. Pode ser que sua adolescência tenha sido fácil, leve e agradável (que bom para você, você é privilegiado, sim!). Mas saiba que nem todas as pessoas são iguais e que os tempos mudam. Você já imaginou como seria viver sua adolescência no meio de uma pandemia? Quer saber como é viver isso? Pergunte para uma adolescente. Escute uma adolescente. Entenda uma adolescente. Somente ela será capaz de dizer para você como é viver a adolescência nos dias de hoje. Seja para ela uma pessoa de confiança a quem ela poderá recorrer para compartilhar a vida.
Privacidade
Lembro que há mais de 15 anos eu e minha irmã tivemos uma conversa sobre como iríamos educar nossos pais para bater na porta do nosso quarto antes de entrar. Na maioria das vezes eles só queriam pegar algum objeto que ficava no armário do quarto, mas ainda assim tivemos que “educa-los” porque queríamos privacidade. Na nossa casa deu certo, só que infelizmente nem sempre os adultos entendem que a adolescente precisa de privacidade.
Os adultos precisam enxergar a adolescente como uma pessoa e como qualquer pessoa, ela tem o direito à privacidade. Pergunto a vocês: Você mexeria na bolsa de alguém sem o consentimento da dona da bolsa? Você abriria a porta de algum ambiente sem antes bater e pedir autorização para entrar? Você leria o diário de seu colega de trabalho? Você abriria o celular e leria conversas íntimas de um parente?
Se você respondeu “sim” para uma dessas perguntas, reveja sua educação e seus princípios.
Se você respondeu “não” para todas as perguntas, eu te pergunto outra coisa: Por que você faria isso com sua filha (neta, sobrinha, irmã, etc), se você não faz com mais ninguém?
Ela precisa ter o espaço pessoal dela garantido. Sem o reconhecimento disso, a jovem pode não entender a importância de ter seu espaço pessoal e se envolver futuramente em relações abusivas que invadirão sua intimidade.
Aqui ainda vale duas ressalvas. A primeira: É claro que existe um limite para esse “espaço pessoal”, principalmente quando se refere às meninas mais novas na internet. A internet está envolta de perigos e é necessário fiscalizar as conversas e interações com desconhecidos (vou falar sobre isso em outro post). Para fazer isso você pode dialogar com sua filha e estabelecer a regra de que ela deverá mostrar para você quem são as pessoas que tem conversado. Se houver alguém suspeito, você poderá ler. Se ela estiver conversando apenas com amigos e amigas que você já conhece, não será necessário ler. Se você não conhece -pelo menos de nome -os amigos e amigas da sua filha, você está fazendo alguma coisa errada.
A segunda ressalva é: O direito à privacidade é algo que a adolescente pode conquistar a medida em que vai se provando digna de sua confiança.
Regras claras e sólidas
Quem nunca ouviu “na volta a gente compra”? Uma frase tão famosa e tão normalizada por nós brasileiros, mas que esconde questões problemáticas. Se os adultos sabem que não irão comprar o item desejado pela adolescente, porque mentir? Sei que isso é feito para acalmar os ânimos das pequenas tiranas que acham que os pais têm obrigação de comprar tudo aquilo que elas querem, entretanto, a mensagem que é passada para jovem é de que a palavra dos adultos não tem valor e de que ela não pode confiar no que eles dizem. Lembro de quando eu era menor e ia ao shopping com minha mãe, ela sempre me dizia claramente o que eu deveria esperar do passeio: “vamos comprar apenas uma roupa para o seu aniversário e depois vamos tomar um sorvete”. E isso era o que realmente acontecia. Caso eu pedisse algum outro item, ela dizia: “o que combinamos?”
Por que digo que é importante ter regras claras e sólidas?
O mundo já um lugar tão instável e tão imprevisível que a adolescente precisa ter um mínimo de noção de causa e consequência em relação aos seus atos. Tem coisa mais frustrante do que combinar que se você lavar a louça do almoço poderá ir para a casa da sua amiga, aí você lava a louça direitinho e na hora de ganhar a recompensa seus pais mudam de ideia porque não querem te levar? O que a adolescente está aprendendo disso é: não vale a pena confiar nos pais, não vale a pena fazer o que foi combinado porque a recompensa é improvável.
Já existem outros comportamentos que são mera obrigação da jovem e que não deverão vir acompanhados de recompensa, como, estudar, se alimentar bem, dormir tal hora, fazer alguma atividade doméstica (como arrumar a cama), ficar X tempo no celular, etc. Nem todas as atividades obrigatórias serão acompanhadas de ganhos imediatos, pois os ganhos são a longo prazo. Você, como adulto, tem o poder de estabelecer as regras da casa e fazer com que elas sejam cumpridas. Nesses casos, as jovens deverão entender que é assim porque é o que deve ser. Porém, se você negociar alguma recompensa pelo cumprimento da atividade, por favor, cumpra seu compromisso. A adolescente precisa aprender que palavra também tem valor.
Para toda regra tem exceção. Logo, em dias especiais (como férias, finais de semana, aniversário, entre outros) certas regras poderão ser reajustadas.
Serem acolhidas em suas demandas
Para uma pessoa adulta, os problemas que uma adolescente enfrenta podem parecer bobos. Quando eu era adolescente ouvi diversas vezes (de adultos que não eram meus pais) que eu não tinha preocupação alguma, pois não tinha contas para pagar. Eu tive uma adolescência tranquila em muitos sentidos, mas ainda assim houve conflitos internos que precisei enfrentar.
Sendo assim, fiz uma lista das principais demandas que adolescentes enfrentam diariamente e provavelmente você nem saiba. Não vou aqui considerar questões de violência e situações de risco, pois esses não são conflitos normais da fase da adolescência e precisam ser avaliados de forma mais delicada, não através de um texto como esse.
Na família: Eu concordo com meus pais? Eles têm coerência entre o que dizem e o que fazem? Eu quero ser como eles? Quais coisas que eles valorizam que para mim não fazem sentido? Meus pais aceitam a pessoa que sou? Meus pais me amam?
Nas amizades: Como fazer novas amizades? Como manter as velhas? Tal pessoa é confiável? Tal pessoa parece comigo? Tal pessoa vai me entender? Não me identifico com os amigos de infância, como me separar deles? Minha amiga quer ficar com a pessoa que eu gosto.
No corpo: Quando vou menstruar? Quando minhas amigas vão menstruar? Eu sangro mais ou menos que minhas amigas na menstruação? Meu peito está muito grande (ou o inverso), isso é normal? Devo depilar as axilas? Eu sou mais alta que os meninos. Não me identifico com meu corpo. Meu corpo é bonito?
Nos relacionamentos: Eu gosto de homem e/ou de mulher? Como será meu primeiro beijo? Alguém vai querer me beijar? Tal pessoa gosta de mim? Como é namorar? Tal pessoa vai me trair? Como será minha primeira relação sexual? Eu quero terminar o relacionamento, como fazer isso?
Na sociedade: Quero ter a mesma mochila que minha amiga, mas meus pais não tem dinheiro. Um homem adulto me olhou diferente, o que fazer? Não sei que profissão seguir. Quero transitar pela cidade, mas meus pais não me deixam pegar ônibus.
Obviamente não dá para colocar tudo aqui. A questão é que tudo isso vem junto com uma miscelânia de emoções. Com que frequência sua filha está chorando e ela não consegue nem te dizer o motivo? As meninas precisam de acolhimento e não de uma pessoa que diga “isso é besteira”, nem “é fase, vai passar”. Estimule o diálogo na sua casa, converse, coloque no colo, faça carinho, conte como foi na sua época e quando não souber o que dizer, escute e seja presença.

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